Durante anos, o refluxo foi um sintoma “comum” na minha rotina, aquele incômodo silencioso que parecia inofensivo, mas que, na verdade, dizia muito sobre o estado do meu corpo. Só quando comecei minha jornada de remissão da Hashimoto percebi que o refluxo era mais um sinal do desequilíbrio interno, e não apenas um problema localizado no estômago.
Muitas pessoas acreditam que o refluxo é causado por excesso de ácido gástrico, mas a realidade é exatamente o oposto:
grande parte dos casos está relacionada à baixa produção de ácido clorídrico (hipocloridria).
E quando o corpo não produz ácido suficiente, a digestão fica incompleta, os alimentos fermentam e sobem pelo esôfago causando aquele gosto amargo e a sensação de queimação.
Cuidar da digestão é cuidar da sua energia vital.
Quando o estômago encontra equilíbrio, a tireoide agradece — e o corpo inteiro respira aliviado.
Nosso sistema digestivo é profundamente interligado com a função da tireoide.
Quando a tireoide está lenta (hipotireoidismo ou Hashimoto), a motilidade intestinal também desacelera. O estômago demora mais para esvaziar, o fígado trabalha em ritmo reduzido e a produção de enzimas digestivas cai.
Esse conjunto de fatores cria o ambiente perfeito para:
refluxo e má digestão;
sensação de estufamento após as refeições;
azia frequente;
carências nutricionais (principalmente ferro, B12 e zinco);
e até desequilíbrios hormonais.
O fígado, sobrecarregado, perde eficiência na conversão do hormônio T4 em T3, o que agrava os sintomas da tireoide e cria um ciclo vicioso:
tireoide lenta → digestão lenta → sobrecarga → mais sintomas.
O erro mais comum: silenciar o sintoma
Os antiácidos e inibidores de bomba de prótons (como omeprazol e pantoprazol) são muito usados para “aliviar” o refluxo.
Mas o que eles realmente fazem é bloquear ainda mais a produção de ácido, piorando a digestão a longo prazo e impedindo a absorção de nutrientes essenciais.
O resultado?
O sintoma melhora por um tempo, mas o corpo continua pedindo socorro, com fadiga, queda de cabelo, pele seca e desequilíbrios hormonais cada vez mais evidentes.
Causas mais frequentes de refluxo em quem tem Hashimoto
Sensibilidades alimentares — glúten, laticínios e alimentos ultraprocessados estão entre os principais gatilhos inflamatórios.
Infecção por Helicobacter pylori — uma bactéria que reduz o ácido gástrico e causa irritação na mucosa do estômago.
Baixa motilidade digestiva — consequência direta da lentidão metabólica da tireoide.
Estresse crônico — o cortisol elevado desvia sangue da digestão e afeta o equilíbrio entre fígado, estômago e intestino.
Uso prolongado de medicamentos — como anti-inflamatórios, antidepressivos ou antiácidos.
Caminho natural para restaurar a digestão
O refluxo é um convite à reconexão com o corpo.
Antes de tentar silenciar o sintoma, é preciso escutar o que ele está tentando dizer.
Aqui estão passos simples e seguros para quem deseja restaurar o equilíbrio digestivo e apoiar a tireoide:
Identifique e elimine gatilhos alimentares — experimente ficar 4 a 6 semanas sem glúten e laticínios e observe como o corpo reage.
Apoie a produção natural de ácido gástrico — beber água com limão ou vinagre de maçã antes das refeições pode ajudar (desde que não haja gastrite ativa).
Trate infecções ocultas — como H. pylori e SIBO, com acompanhamento médico.
Reduza o estresse — técnicas de respiração, sono adequado e pausas diárias ajudam o corpo a voltar ao estado de digestão e descanso.
Fortaleça o fígado e o intestino — alimentos amargos, ricos em enxofre (como brócolis, alho e cúrcuma), e suplementos com glicina ou NAC podem auxiliar.
Refluxo não é só no estômago, é no estilo de vida
Quando a digestão melhora, algo mais profundo também muda:
a energia retorna, o inchaço diminui, o humor se estabiliza e o corpo volta a responder melhor aos cuidados hormonais.
Reequilibrar o sistema digestivo é um dos pilares da remissão da Hashimoto, porque o intestino e o fígado são o centro de toda regulação hormonal.
Por isso, se você convive com refluxo, não o veja como um inimigo, veja-o como um sinal de alerta inteligente, indicando que é hora de olhar para dentro e ajustar o que o corpo tenta te contar em silêncio.

